Talvez eu não escreva mais cartas para um mundo sem palavras

Um envelope de carta no meio da folhagem (foto de acervo pessoal).

É difícil continuar escrevendo para um mundo cada dia mais cego, em que as cartas não produzem mais visão. Já que os sentimentos precisam ser silenciados para a gritaria da racionalidade. E me parece mais evidente que está dando certo, as mídias sociais promotoras de ecos de si, são as experimentações desse sucesso capitalista-neoliberal. Não conversamos com solidez, com uma presença verdadeira dos corpos e mentes. Somos uma manada de consumidores, que morremos e matamos pelo dinheiro. E assim, com toda essa lucidez dolorosa, talvez eu não escreva mais cartas para um mundo sem sensibilidade.

É difícil continuar escrevendo para um mundo cada dia mais egoísta, em que as cartas não produzem mais cooperação. Já que as redes de solidariedade são asfixiadas pelos aprisionamentos competitivos. A outra pessoa é um alvo que precisa ser abatida para meu ganho, e de novo, somos adoecidos e mortos pelo dinheiro. E assim, com as palavras se perdendo no meio do caos produzido pelo mesmo sistema de consumo, talvez eu não escreva mais cartas para um mundo sem afeto.

É difícil continuar escrevendo para um mundo cada dia mais sem existência, em que as cartas não produzem mais sentido. Já que as pessoas apenas sobrevivem na forma ordinária e controlada de suas vidas, de casa ao trabalho, numa jornada tão mortal que nem percebemos. Em que o tempo para ler e escrever não existe, em que o tempo para se tornar extraordinária não existe, em que o tempo não existe, apenas uma contínua ausência. E assim, com a ditadura do tempo-líquido, não existe possibilidade de cultivar relações de si para com as outras pessoas, talvez eu não escreva mais cartas para um mundo sem tempo.

Dentre tantos outros motivos que poderia continuar pensando e escrevendo, sinto cada vez mais impossível continuar na dimensão das cartas para uma sociedade que não vive no presente, aqui e agora, mas numa eterna projeção de futuro sequestrado pelo mito do sucesso financeiro-profissional. E assim, consigo ir compreendendo que o tumor maligno que devora nossa essência é o dinheiro. Nos coisifica em mercadoria, e vamos nos vendendo. Até não termos qualquer valor, e sejamos descartados.

Nessa entristecida realidade, talvez eu continue escrevendo cartas para mim, a fim de evitar ser coisa, e fluir na busca do ser negro afro-diaspórico que pulsa no meu corpo. E caso queiram também escrever cartas, estarei pronto para tecer esses laços afetivos-escritos, por mais que esteja cansado, ainda habita um esperançar transcendental nas minhas palavras escritas. São as últimas âncoras que lanço no mar da vida.

Ipiabas, 17 de setembro de 2021

Um escutandeiro que escreve, aqui e agora! 🌻

Um escutandeiro que escreve, aqui e agora! 🌻