Qual o verdadeiro impacto da falta dos corpos negros-lixeiros em Barra do Piraí?

Foto de Mariana Bitencourt (@maremiau) em uma rua principal no centro de Barra do Piraí / Divulgação de @barradopirahy

Nesses últimos dias, enquanto morador de Ipiabas, distrito de Barra do Piraí, me vi cercado de muitos lixos em vários espaços do território, chamado de Paraíso da Natureza. Confesso que prefiro, resistente Mata Atlântica, no tombar diário de suas árvores com esperançar de uma outra realidade. Bom, retornando para o dilema do lixo, fui informado que houve uma quebra de contrato da empresa fornecedora dos serviços de coleta, ainda não muito transparente para mim, mas seguimos com uma certo retorno para normalidade com outra sucessora na licitação. Se é possível existir algo normal na produção insana de lixo em nossa sociedade em consumo de si.

A questão central que anseio abordar nesta breve escrita, é na perspectiva racial dos corpos que coletam esses lixos, sendo na grande maioria negros. Diante de uma profissão precarizada, marginalizada, desapropriada de humanidade. Esses corpos negros-lixeiros trabalham sem qualquer dignidade, de sol a sol, de chuva a chuva, de corrida a corrida, tragando chorume diariamente. Ninguém se importa, são corpos descartáveis. No momento que ocorre uma interrupção nos serviços de coleta, a preocupação da população, na sua maior parte, é a aglomeração de lixo em frente suas casas. Já que não somem mais de forma mágica, como acontecia semanalmente. Existe um profundo abalo nos privilégios de viverem na limpeza após produzirem tanta sujeira.

Deveríamos nos questionar, coletivamente: como estão esses trabalhadores dentro desse contexto? Irá ocorrer uma recontratação com a nova empresa? Receberam durante esse período de ausência do serviço? Seus direitos trabalhistas foram respeitados? E agora caminhando no pensar e repensar sobre nossa podridão de sociedade, quais seriam outras maneiras de produzirmos menos lixos? Como, enquanto comunidade, podemos construir descartes mais ecológicos do lixo? E, principalmente, necessitamos produzir mais humanidade em tanta desumanidade.

Ipiabas, 11 de fevereiro de 2021

Sou uma pessoa dengosa, acolhedora, negra, gay, vegetariana, educando em saúde (fisioterapia, UFRJ), escritora (https://www.minhaspalavrasescritas.com/).

Sou uma pessoa dengosa, acolhedora, negra, gay, vegetariana, educando em saúde (fisioterapia, UFRJ), escritora (https://www.minhaspalavrasescritas.com/).