Odoyá Iemanjá: a pandemia em suas águas

Construção artística de SENEGAMBIA (@senegambia81) do criador Luang Senegambia Dacach Gueye (@luangdacach)

Nesse mês de fevereiro comemoramos mais um dia da rainha do mar, a orixá acolhedora, Iemanjá. Com toda sua potência de ser mulher negra no Atlântico negro, nos cuidou e guiou nos navios negreiros da diáspora para sobrevivermos nas mais diversas partes do mundo escravocrata-colonial. É necessário sempre agradecermos pela nossa possibilidade de respirar em tanta asfixia, somos revigorados nas águas da mãe-preta guerreira.

Na pandemia que estamos atravessando com maior tombamento de corpos negros, pois somos matáveis. Precisamos nos ancorar na resiliência e transgressão de Iemanjá, que no hoje, tristemente, sente nas suas águas uma aglomeração da morte. As pessoas, na grande maioria branca, já que possuem privilégio de estarem nas praias, cachoeiras, rios, aproveitando suas vidas no caos, sem qualquer responsabilidade coletiva. E assim, ocorre uma propagação descontrolada do vírus, com variantes desconhecidas, que irão matar os que sempre morreram. Quantos mais terão que morrer para que essa pandemia acabe?

É dentro desse angustiante processo de desumanização de nossos corpos negros que precisamos solicitar auxílio aos orixás, ou não conseguiremos nadar no mar de sangue negro. Não conseguiremos desabrochar para uma outra forma de existência, em intenso diálogo com nossa ancestralidade africana. Envolvidos carinhosamente nas águas de Iemanjá.

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Ipiabas, 19 de fevereiro de 2020

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