Obra: “Meninos Brincando” de Cândido Portinari criada em 1955

Um ser humano amigue nos traz a diferença. O nascer de um desconhecido diante de mim. Como encantadoramente disse, Aristóteles, filósofo grego: “o amigo é um outro eu”. Esse ser diferente torna-se para vida inteira ao nosso lado. Um estar juntes enquanto ato político de amor. Um amar o outro a despeito do que diz. Uma palavra contraditória e conciliatória. É um romper a bolha que habitamos para ouvir outras vivências e experiências. Ser amigue é estar aberto ao encontro com o outro.

Uma pureza de existência nos envolve nas relações de ser amigue. Uma verdade se torna central. Mesmo que essa verdade seja dura, ela será dita. As palavras faladas e escritas do ser amigue são como raios de sol que nos aquecem em um amanhecer de inverno. Um acalmar e agitar nossas pulsões de vida. Ser amigue é estar em constante tensão.

Um amor incondicional que alerta para os perigos de viver em um mundo perverso. Uma revelação amorosa das realidades que nos permeiam. De intenso pensar e sentir sobre quem somos. Provoca um mudar permanente para sermos vários. Nosso maior suporte de oxigênio nessa relação de amor. Ser amigue é estar em acolhimento da ingenuidade do outro.

A essencial inimizade é a semente da amizade. Para poder ecoar as doçuras e durezas em um desvelar a cegueira mágica da vida. Movimentar os corpos amigues para viverem “paciente impacientemente” como Paulo Freire nos ensina. Somos uma incompletude de Manoel de Barros. Esse vazio permite que o ser amigue possa habitar em nós. Em uma comunhão de pensares tão diferentes e sinceros. Uma felicitação aos seres amigues próximos e os em aproximação.

Ipiabas, 21 de julho de 2020

Habito em um corpo negro afro-diaspórico que escuta e escreve as pulsões da vida cotidiana no mundo colonial, aqui e agora.