Jesus Cristo precisa ser negro num país brutalmente racista como o Brasil

Presépio da comunidade da Paróquia São Miguel Arcanjo (reprodução: Instagram do Padre Julio Lancellotti — @padrejulio.lancellotti)

Jesus Cristo é negro. Essa afirmação é inconcebível dentro do mundo colonial branco. Acredito ser considerado uma blasfêmia pela Igreja Católica, na sua frente mais conservadora-ortodoxa. Ele precisa ser branco para servir aos interesses dos colonizadores europeus. Ao invadirem nossas terras impuseram sua religião, sem qualquer diálogo com as pessoas indígenas. E muitos menos com as pessoas negras afro-diaspóricas. O Jesus branco impõem uma superioridade colonial. Contudo, a história precisa ser recontada. E voltemos para a bíblia. Onde Maria e José se esconderam da tirania de Pilatos? No Egito. Na possibilidade de não serem identificados. Já que a ordem do governador romano era matar toda criança nascida no dia 25 de dezembro. Se Jesus fosse realmente branco, estaria morto, pois o Egito é um país africano. É um território negro.

No Brasil, um dos países mais racistas do mundo, que ainda persevera uma estrutura racial-social de antes da falsa abolição da escravidão. É inaceitável existir um Jesus com a pele negra. Seria uma rasteira em todo projeto de embranquecimento da população. Nesse ponto gostaria de envolver mais intensamente nossa discussão. A revolução está no movimento contrário. No enegrecimento e desbranqueamento dos seus símbolos. Permitindo outras vivências corporais e mentais, a partir das mais variadas cosmovisões. O natal é negro. O natal é indígena. O natal é quilombola. O natal é favelado. O natal não é. Outras formas de existências do natal ou mesmo sua não existência, deveriam ser aceitas. Mas não são, pois já foi contaminado pela doença do dinheiro.

As festas natalinas se tornaram a manifestação máxima da hipocrisia e arrogância. Se perderam as simplicidades e humildades presentes no nascimento do inocente Jesus Cristo. Na sua aconchegante e simples manjedoura. Sem qualquer apego material, apenas espiritual. No país miserável em que sobrevivemos. Vemos a fome corroer os corpo apodrecidos do capitalismo. Ainda mais perverso na atualidade pela sanha fetichista e sadomasoquista da elite branca, que sente prazer no sofrimento dos povos brasileiros. E por isso, é mais que urgente enegrecer Jesus Cristo. Já que ao resgatar sua ancestralidade africana, nos sentimos mais acolhidos em tanto desalento e angústia. Não resolverá a fome, pois seria preciso acabar com a desigualdade racial-social. De qualquer forma, podemos despertar nossas essências solidárias-humanas. Nos reflorestarmos de afeto. E um começo é sentindo e reforçando a necessidade do Jesus Cristo ser negro em nossas vidas brasileiras afro-diaspóricas.

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Ipiabas, 24 de dezembro de 2021

Um escutandeiro que escreve, aqui e agora! (https://www.minhaspalavrasescritas.com/) 🌻

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