Continua existindo vida fora das telas, mas precisamos lutar para mantê-la viva

Simbólica e potente fotografia de Duda Dusi (@dadusi_)

No retornar meus deslocamentos físicos para regiões mais distantes, com os cuidados necessários e ainda de maneira ligeira, porém, depois de um ano fixo em casa, é uma sensação inquietante. Primeiramente, pelo privilégio de permanecer na segurança do lar por tanto tempo, me movimentando nas telas, enquanto um povo brasileiro tomba diariamente nas ruas contagiadas pela pandemia e a fome.

Respirar nos espaços virtuais-fragmentadores, como quase uma totalidade da vida, promove uma certa diluição dos rituais sociais comuns, como escreve-desperta, o filósofo Byung-Chul Han, no jornal El País:

Meu livro Do desaparecimento dos rituais foi publicado na Alemanha antes da pandemia. Nele descrevo nosso presente a partir da tese do desaparecimento dos rituais. Hoje estamos perdendo as estruturas temporárias fixas, inclusive as arquiteturas temporárias, que dão estabilidade à vida. Além disso, os rituais geram uma comunidade sem comunicação, enquanto o que predomina hoje é a comunicação sem comunidade. A mídia social e a permanente encenação do ego nos esgotam porque destroem o tecido social e a comunidade.

Dentro desse contexto, devemos nos questionar, o quanto estamos em equilíbrio no mundo líquido? E como a pandemia acentuou na perspectiva de um desequilíbrio das arquiteturas básicas das relações sociais, como os olhares, abraços, toques, que desapareceram de um dia para o outro, uma asfixia da coletividade. As mídias sociais mais fragilizam, que fortalecem nosso senso comunitário, contudo, é um meio central para ecoarmos nossas narrativas silenciadas, assim, a usemos de forma estratégica para criação de fraturas no mundo colonial-branco.

Mesmo no colapso que sobrevivemos, nas prisões das telas, a vida continua pulsando na realidade. As borboletas continuam voando, as sementes continuam germinando, as plantas continuam florindo, as frutas continuam amadurecendo, os rios continuam fluindo. Precisamos, urgentemente, aprender com os povos originários, principalmente, os negros afro-diaspóricos e indígenas, como é agir no fim dos mundos? Não existe mais tempo de permanecermos entrincheirados em nossos lares seguros, o governo Bolsonaro genocida é bem mais perigoso que o vírus. As ruas precisam ser ocupadas pelos nossos corpos, como aconteceu no último dia 29 de maio de 2021, mascarados com PFF2 e armados com álcool em gel. Salvar a vida que resta fora das telas, é uma responsabilidade de todes Nós. A rebelião já começou.

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Ipiabas, 01 de junho de 2021

Um escutandeiro que escreve, aqui e agora! 🌻