As vacinas são o caminho, não a solução

Um afetuoso abraço após vacinação da COVID-19 na aldeia indígena de Mata Verde Bonita/ Maricá (RJ) (Foto: Marcos Fabrício)

Estamos fluindo num mundo cada dia mais coberto pela esperança das vacinas, assim, é comum sentirmos um vento de liberdade para retornarmos aos encontros reais-presenciais com pessoas queridas, além de aglomerações saudáveis. E isso pode ser algo viável num futuro, diferentemente em cada região, nos países do norte ("ricos") mais rápido que no sul ("pobres"). Devido ao grande poder da indústria farmacêutica, promovendo uma reserva de mercado durante uma pandemia sem precedentes para nossa sociedade humana. Se hoje tivéssemos as patentes das vacinas, nosso Sistema Único de Saúde (SUS), já teria produzido uma enorme quantidade de doses. E não estaríamos reféns do mesmo capitalismo que produziu a crise sanitária que estamos morrendo.

Bom, quero ir para um pensamento dominante sobre as vacinas. Existe um discurso poderoso de que esse medicamento seria a solução para voltarmos para uma dita normalidade. Na verdade, para mim, nunca fomos normais. Somos racistas, consumistas, machistas, individualistas, e outras deformações, criadas pela elite branca na possibilidade de edificar um planeta na sua lógica colonial. De certa maneira, está dando certo, apesar de alguns corpos transgressores estarem agindo nas frestas, como os afro-diaspóricos e indígenas. E nesse contexto, a narrativa da vacina salvadora está com muita força, porém, é tão frágil essa afirmação quanto sua capacidade de permitir um renascimento para uma outra forma de humanidade.

Acredito nas vacinas como caminhos possíveis para seguirmos na busca de alguma coisa essencial para cada um de Nós. Talvez um beijo, abraço, chamego fazem uma diferença extraordinária em nossas vidas, sinto muita falta desse toque na pele. E espero ansiosamente pelas vacinas na libertação das simples sensações humanas aprisionadas no medo do desconhecido agente viral. Nessa encruzilhada existencial que olho para as vacinas. E a partir delas, é urgente pensaremos e repensarmos nossas histórias, posições, atitudes, comportamentos para construção de soluções e libertações.

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Ipiabas, 01 de março de 2021

Habito em um corpo negro afro-diaspórico que escuta e escreve as pulsões da vida cotidiana no mundo colonial, aqui e agora.

Habito em um corpo negro afro-diaspórico que escuta e escreve as pulsões da vida cotidiana no mundo colonial, aqui e agora.